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Ao ar, por pesar, foi lá. Valeria a pena? Bom, por arriscar.... De mais a mais, não comeria o papel, não é? Gostava do biscoito, em si, mas de papel, não... Então... bem, então o papel era apenas papel, e não servindo para se comer mas servindo – aí sim – para se ler (e é incrível como palavras em folhas em brancos chamam a atenção, por mais incompreensíveis que fossem as palavras e por menores que fossem as folhas em branco), foi o que fez. - Ainda que te ponham dúvida, a maior genialidade humana está dentro do ser, não fora dele. Riu. Novamente não fez sentido. Nunca fazia e não deveria fazer. Biscoitos da sorte chineses: quem acreditaria neles? Tão improváveis como horóscopos, mapas atrais e o que mais fosse... pessoas pensando palavras bonitas para dizer para alguém que nem conhecem. Escrevesse ele sobre, digamos, alfaces plantadas no quintal da casa prevendo o destino de não-sei-quem dono do quintal – e, por que não, das alfaces –, acertaria tanto quanto (o que significava que não acertaria nada) e teria o mesmo número de adeptos. Foi pensando nisso – e em como seu biscoito da sorte era bom, mas estava ligeiramente mais seco do que de costume – que ele seguiu seu destino. Não que acreditasse em destinos – e o que significava destino, mesmo? – mas... continuou seguindo. Afinal, mais importante que papéis com coisas escritas que são lidas por você é, tendo uma informação recebida, fazer algum tipo de uso dela. E um dos tipos mais importantes de uso de informação é duvidar dela, principalmente quando ela diz respeito a sua sorte – ainda que você não acredite em sorte. E... oras: a melhor forma de se provar que videntes – e chineses – estão errados é esperar que a coisa não aconteça. Se ela não ocorrer foi, obviamente, porque a bolinha de cristal estava errada! Ainda que ele duvidasse que chineses tivessem bolinha de cristal, mas achasse realmente que eles tinham que aprender que isso de tentar adivinhar o futuro era apenas enganação! Para provar que os chineses estavam errados, então, resolveu guardar o papel. Ele era pequenininho, que mal haveria? E sempre poderia ser usado... para falar num momento determinante de um diálogo morno e sem sentido. Sim, o papel deveria ser guardado. E, em guardado sendo, foi esquecido. E, sendo esquecido, ele não provaria que os chineses estavam errados, mas que diferença faria? Estavam errados mesmo! O tempo passou. Ele seguiu. O papel se perdeu. E o tempo passou... E a vida passou... As pessoas pregaram peças nele. E os outros diziam que era porque elas eram melhores, e ele perdoou. E as pessoas passaram a perna nele... e os outros diziam que era porque elas eram melhores, e ele perdoou. E as pessoas começaram a usar as idéias dele para construírem as suas... e os outros diziam que era porque elas podiam, afinal olha quanto elas tinham feito? Elas eram geniais! E ele se sentiu incomodado, mas relevou. E os outros disseram se sentir magoados porque ele se incomodava, e ele se sentiu triste, pois não queria magoar, mas sabia que aquilo não era certo... As pessoas ficaram esnobes. Os outros continuaram magoados, pois ele continuava incomodado, achando que aquilo não era certo. Ao final, ele se sentia triste, porque magoava quem não merecida, era pisado por quem se usava dele e ninguém além dele notava que toda aquela obra maravilhosa era sua, muito menos o quanto ele se esforçava em vão e como se sentia triste com essa situação. E foi frente a essa situação que ele começou a se sentir a pessoa mais tola do mundo. O idiota mais burro... afinal: se ele trabalhava, não deveria ele ter os créditos? E se ninguém o considerava tão grandioso... se geniais eram as pessoas que roubavam dele... e se não tinha direito de não gostar e reclamar... Mas a ponta de dúvida surgiu, enquanto ele tinha sua sessão de auto-degradação. Afinal: se geniais dependiam de suas idéias... se os outros se incomodavam com ele e não com as pessoas e o que elas sentiam... e ele tinha chegado tão imensamente longe tendo tão pouco apoio para si e tanto obstáculo contra.... Foi um surto de inteligência! Como descobrisse a roda da própria vida, notou que tudo estava errado... que, afinal, geniais eram aqueles como ele, que a despeito do que pudesse vir contra continuavam seguindo seu rumo e não medindo esforços para fazer o certo e o justo. E foi num surto de acaso que o papel reapareceu. Ainda pequeno... ainda com letrinhas... ainda vindo de um biscoito chinês que pretendia descobrir o futuro... e ainda exercia o mesmo magnetismo de papéis em branco com letras... - Ainda que te ponham dúvida, a maior genialidade humana está dentro do ser, não fora dele. Ele sorriu. Lembrou-se do papel. Lembrou-se que... queria provar que o papel estava errado! Mas, oras: certo e errado. Duas possibilidades: sim e não! Com 50% de chance de dar certo, o acaso – e o chinês! – tinha muita chance de conseguir seu intento. Logo, não atribuiria sua genialidade ao papel, mas a seu próprio pensamento. Pois, pondo a modéstia de lado, ele sabia muito bem que fazia por merecer ser o gênio que era. | ||||||
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EUqueDISSE 2014 |
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