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| Ameaçava chuva, ventava e fazia frio quando ele pensou: Vou embora. Era o melhor a fazer, certamente: ir. Para que ficar? Para esperar a chuva cair? Para se molhar? Para ficar parado no congestionamento? Para... não importava. Ele havia decidido ir embora, e não procuraria desculpas. Iria. E ponto. Sair, claro, nunca era tarefa simples. Como poderia ser? Tinha que guardar tudo. Não que houvesse muito a ser guardado, mas cada coisa tinha seu devido lugar. Isso dava mais trabalho do que simplesmente ir embora. As coisas poderiam ficar fora do lugar, é claro. Afinal estava para chover, ventava e fazia frio! Se ele não saísse naquela hora, teria problemas para chegar a sua casa. Mas o que diriam dele, se vissem que tinha guardado tudo fora do lugar? Claro, ele não poderia deixar isso ocorrer. E por não poder deixar, guardou tudo, tudo... cada coisinha em seu devido lugar. O que tomou tempo, mas era o melhor a ser feito, então ele não se incomodou com isso. Ainda assim, ir embora não era tarefa simples. Tinha que se despedir de todos. Os colegas do corredor, a secretária que o ajudava, o chefe... Não, ele decidiu: não se despediria de todos. Só dos que encontrasse no caminho. E do chefe, é claro. Do chefe era importante se despedir, ou ele poderia pensar alguma bobagem. Chefe precisa sempre estar bem impressionado conosco, e por isso – e só por isso – faria questão de dizer tchau para o chefe. Só do chefe. Só. E iria embora. Teria que se desviar um pouco do caminho, o que tomaria tempo, mas era o melhor a ser feito, então ele não se incomodou com isso. Porém se despedir do chefe pode tornar a tarefa de ir embora mais difícil ainda! Afinal chefe é chefe. E não se deve apressar chefe. Ele quer conversar? É assunto torpe? E daí? Ele é o chefe. Ele pediu algo mais para se fazer? Tudo bem, pode ficar para amanhã, mas... é preciso anotar direitinho o que o chefe quer que seja feito – afinal chefe que é chefe não gosta de ficar se repetindo. E com isso, ele precisou voltar para sua mesa, pegar sua agenda, escrever tudo... e guardar tudo nos devidos lugares. O que tomou tempo, é claro. Mas era melhor do que deixar algo sem fazer no dia seguinte, certamente. O que era o melhor a ser feito. Então ele não se incomodou com isso. E finalmente seria simples partir. Não fosse o raio. E o fim da luz. E a chuva, que começava a cair finalmente. Ele pensou que deveria ficar, agora que não tinha mais desculpas para ir. Mas... agora não tinha desculpas para mudar de idéia: trabalharia como, se não tinha como ligar o computador, se já estava anoitecendo e logo estaria escuro? Assim, ele foi embora. E finalmente se incomodou com algo naquele dia... (12042012) | ||||||
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EUqueDISSE 2014 |
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