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| Os olhinhos de gralha do peru olham para ambos os lados. Direita parece ok. Esquerda dá pra passar, aparentemente.
CORRE! As perninhas de avestruz do peru começaram a se movimentar rápido. Não que ele soubesse do que estava fugindo, mas nós fugimos de tanta coisa que não sabemos o que é, não é mesmo? E, se ele estava fugindo, é porque era necessário, e instintivamente ele sabia disso. Mesmo que ele ignorasse completamente o que era instinto e para que raios isso serviria. Até porque, de alguma forma, a idéia do instinto é justamente evitar ter que ficar pensando demais enquanto se precisa agir de forma mais rápida, e era exatamente o que ele estava fazendo – estava fugindo sem pensar muito no porque, e fugindo rápido para evitar ser pego não importava como. E como uma coisa leva a outra, logo o peru estava sendo seguido: - Está correndo para pegar o ônibus, mano? Ele não tinha tempo de responder. E logo veio outra pessoa, se juntando a dupla^: - Estão treinando, posso me juntar? Sem resposta, o pequeno grupo continuou, e logo estavam correndo pela liberação da maconha, pelo final da impunidade entre os políticos, pela legalização do aborto, pelo casamento homossexual, pela pena de morte, contra a pena de morte, pelo direito das criancinhas da região setentrional do sul to atlântico norte... por um milhões de coisas diferentes, nenhuma delas realmente importando para o peru, que apenas continuava correndo. E não demorou para aparecer a mídia, falando da corrida, mas sem saber exatamente porque. E logo apareceu a polícia para impedir os atos de vandalismo que seguem muitas manifestações. E logo apareceu grupos de ideologia incerta e não sabida, querendo dizer que a idéia era deles, que a causa era a que eles defendiam e que não importava o que ocorresse, eles estavam por detrás. E logo apareceu pessoas declarando ser contra, e pessoas declarando ser a favor do que quer que estivesse acontecendo. E, como não poderia deixar de ser, a coisa acabou como começou: de repente. As pessoas pararam de correr para confraternizar, para brigar, para dar entrevistas, para voltar para suas vidas. E o peru? Esse continuou correndo por muito tempo, agora ainda mais apavorado pelo que quer que estivesse o amedrontando – afinal, agora era perseguido por milhares de pessoas. Correu tanto, o pobre peru, que demorou para se notar só, e quando notou, tinha outro problema maior para resolver: onde estava? Estava perdido, o pobre peru. Que decidiu que deveria aprender a voar, afinal voando seria mais fácil fugir daquele povo todo.[27072011] | ||||||
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EUqueDISSE 2014 |
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