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| O espião Capítulo 4 – Parte X Simone estava sentada ao lado da sogra durante a pequena cerimônia que estavam fazendo em homenagem a César. Ele não era o único morto que estava sendo velado naquele dia, o que certamente ofuscaria se elas não se sentassem junto, mas d. Dorotéia havia reforçado que aquilo deveria ser feito por seu filho, que certamente ele teria isso como um último desejo. E a viúva não sabia o que era pior, estar ali, o sofrimento que sentia ou a sensação de que sua sogra a culpava. Um soldado de patente maior fazia discursos bonitos a respeito da coragem dos combatentes. Como eles tinham sido fortes e tinham contribuído para o bem de seu país no campo de batalha. Simone se perguntava se aquele não seria um discurso padrão, e se aquele senhor estivera, em algum momento, na guerra para poder falar com propriedade sobre o assunto. Mas no que isso faria alguma diferença? O que mais importava naquele momento não era o discurso vazio, mas os caixões cheios que estavam à frente daquele salão. Passado o discurso, tiros foram dados em homenagem aos mortos e todos rezaram por suas almas. Embora parecesse impossível, o mestre religioso havia sido capaz de amenizar o fato de sua religião pregar a paz e aqueles garotos terem sido mortos na guerra. Quanto ele concordaria com aquele discurso também passou pela cabeça de Simone. Foi quando ela notou que estava começando a pensar que todos ali, naquele ambiente, estavam fingindo de alguma forma. Menos os mortos. Esses estavam mortos de verdade. Ao final da cerimônia, o soldado cumprimentou os parentes das vítimas, e, em seguida, todos começaram a trocar condolências e sair. Quando ficaram apenas as duas e outros parentes de vítimas, D. Dorotéia disse: “Você matou meu filho. Ele morreu e não sobrou nada dele entre nós. Espero que sofra muito, muito, pelo resto de sua vida, Simone, para que pague pelo que fez ao meu César. Ele não merecia estar naquele caixão. Você sim.” Simone pensou que preferia, de fato, estar naquele caixão, mas não disse nada. Ouviu as críticas em silêncio, e se afastou da sogra, certa de que nunca mais a veria. Advogados do exército cuidariam de toda a papelada relacionada com a morte do marido. Ela abriria mão da herança que tinha, alegando que havia passado muito pouco tempo casada para poder se achar no direito de receber algo. Isso faria com que precisasse fazer pouco ou nada em relação à morte de César. Embora quisesse fazer mais, embora quisesse poder ajudar sua sogra – inclusive no que dizia respeito a superar aquilo – não tinha força para lugar contra a resistência dela. Cada uma delas teria que superar aquela morte sozinha. O que era mais dolorido do que a morte em si. (02012014 – publicado em 28022014) | ||||||
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EUqueDISSE 2014 |
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