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O Espião

Capítulo 1 – parte I

Ela olhou para ele com desdém. Ou, melhor dizendo: teria olhado com desdém, se não houvesse um computador entre os dois. Havendo, ela olhou a tela, e pensou que queria muito que ele a visse, agora. Queria que ele visse seu olhar de desdém. Queria que ele soubesse que ela não estava levando a sério o que ele dizia. Por mais que soubesse que esse conhecimento não faria diferença alguma na vida dele – nunca fazia! Não porque ele não se importasse com o que ela pensasse, mas porque ele era empolgado demais para se importar com isso enquanto elucubrava:

“Então, Simone, você vai pegar a direita na praça. Sabe de que praça estou falando?”

“Claro.”

“Pegue a direita na praça, siga até o final e pronto, estará na Avenida Gloriosa.”

Ela respirou fundo e insistiu no que dissera antes:

“E como eu vou evitar o trânsito congestionado da praça por conta das celebrações de final de ano, César? Lá está uma balbúrdia, cheio de gente e festas e enfeites... quero evitar exatamente isso!”

César ficou por algum tempo em silêncio. Talvez estivesse frustrado com o fato de Simone não ter gostado do plano dele. Talvez estivesse tentando pensar no que ela estivesse tentando explicar a ele. Talvez... ele estivesse apenas em silêncio, ela já não sabia mais.

“Olha, vamos fazer assim, eu espero até o final das festivas de hoje e volto pra casa, não tem problema.”

“Vai ficar muito tarde! Imagine que horas você vai chegar em casa.”

“Pelo menos vou poder pegar um caminho direto.”

“Vou pensar em outro caminho e já te chamo novamente.”

Não, ele não se daria por vencido. Simone achava – sempre achava – que o melhor a fazer era esperar o trânsito passar, tirando o tempo para atualizar suas leituras, ir ao cinema, ver lojas ou simplesmente não fazer nada. Chegaria tarde em casa? Sim, mas menos cansada. Conseguia explicar isso a ele? Nunca. Ela era incapaz de entender porque ele não conseguia compreender isso, e, em alguns momentos, concluía que era apenas porque queria impressioná-la. E impressionava, certamente. Não impressionasse, não estariam a tanto tempo juntos. Ela sorriu, enquanto pensava nisso: 5 anos. Tempo suficiente para a maior parte dos relacionamentos que ela tivera antes minguar e acabar, alguns deles em pé de guerra mortal, e a ponto de ela não querer ver o outro nem pintado de ouro. Mas com César era diferente. Ela ficava com raiva dele em diversos momentos, mas quando estavam juntos, ele a fazia rir. Por mais que ela se irritasse com seu jeito cabeça-dura, ele sempre estava tentando encontrar um meio de agradá-la. E faria seu melhor, até concluir que tinha sido o bastante. O que era, possivelmente, o motivo pelo qual ela ainda estava com ele, apesar de irritante, depois de tanto tempo. Pensando nisso, ela fechou a janela em que estavam conversando – quando ele voltasse a chamá-la, a janela abriria novamente, e ela sabia disso. Antes de voltar ao que estava fazendo, porém, parou para dar uma passada de vista nas notícias do dia: as ofertas de ano novo, um acidente de carro, o aumento da tensão diplomática entre Coneva e Sardenha. Clicou na última notícia – era um assunto que sempre chamava a atenção dela, como moradora de um dos países. Enquanto a página carregava, porém, o telefone começou a tocar, com seu chefe cobrando um documento que ela já deveria ter levado a ele. Levantou-se correndo e foi terminar o que tinha que fazer.

****

No início da manhã seguinte, a faxineira limpava a sala de Simone. Enquanto tirava o pó da mesa, esbarrou no mouse, o que fez o monitor voltar a vida. Balançou a cabeça: Simone havia esquecido novamente a máquina ligada. A faxineira resolveu aproveitar a deixa: por que não usar o computador para mandar para o namorado um e-mail? Ele ficaria feliz com a surpresa, sem dúvidas. Terminado o e-mail, desligou o computador – era sábado, e ninguém o usaria nos próximos dias.

Do outro lado da cidade, César encontrava-se com Simone:

“E então, usou o caminho que eu te sugeri ontem?” ele perguntou.

“Aquele caminho era horrível!” ela respondeu.

“Mas evitava todos os pontos complicados pelos quais você passaria, amor.”

“Menos a praça!”

“Que praça? Esse caminho evitava a praça!”

“De que caminho você está falando?”

“Pouco antes do seu horário de ir embora eu te mandei uma mensagem com uma nova sugestão de caminho. Achei que embora você estivesse como ausente, você veria quando desligasse o computador. Você não viu?”

Nesse momento, Simone começou a rir:

“Maria vai me matar!”

“Por quê?”

“Ontem meu chefe começou a me encher o saco e eu acabei esquecendo o computador ligado...”

“Bobinha...”

“Aposto que vou ouvir muito quando chegar pra trabalhar na segunda...”

“Pior é que eu perdi um tempão fazendo o caminho para você, e você nem viu...”

“Tadinho dele...” ela disse, rindo e beijando-o: “Um beijinho pra recompensar...”

(10122011)

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