![]() |
| O espião Capítulo 2 – Parte XIII Jantares de família começavam a irritar Simone. Principalmente porque ela não tinha mais família. Ou até tinha: tinha uma meia-irmã que pouco se importava com ela, que morava longe... Era como se não tivesse. Mas... havia a família de César. Mais especificamente, a mãe dele, a tal que a amava como filha. César insistia que a mãe adorava a noiva, e que ela não poderia deixar de ir, que a mãe havia convidado! Não! Não! A cada segundo, Simone odiava mais e mais isso. Naquela noite, Simone pensou seriamente em dizer que não iria. Arranjaria uma boa desculpa, o que seria certamente mais prudente. Mas... não era tão fácil assim. César estava cada vez mais... hábil em convencê-la a fazer o que não queria, essa que era a verdade. E por mais que ela encontrasse desculpas e mais desculpas, nenhuma era boa o suficiente para conseguir se desvencilhar dessa obrigação. A última das desculpas foi algo que Simone já havia dito milhões de vezes, e que estava dizendo cada quase todos os dias nos últimos tempos: “César, por favor, você sabe que eu não gosto da sua mãe! Ela fica implicando comigo por bobagem! Não dá!” “Você está exagerando, Simone, e eu já te disse isso um milhão de vezes. Além disso, se você quer ficar bem comigo, amor, depois que a gente casar... terá que conviver com a minha mãe, e você também sabe disso!” disse César, no golpe final de sua discussão naquele dia. Vencida, Simone acabou indo. O jantar seguia da forma de sempre. Dorotéia falando, e falando, e falando. Elogios para o filho, críticas veladas para a nora. Simone sorria, sem dizer mais nada, olhando para a sogra, mas prestando atenção, de fato, na televisão, que passava o noticiário. Foi quando começaram a falar da guerra. Dorotéia levantou-se para desligar a televisão: “Odeio quando começam a falar dessa guerra. Tenho tanto medo que meu filhinho seja convocado!” “Eles não vão me convocar, mãe!” respondeu César: “Imagina, com tanto militar bombado, saradão, vão querer um fora de forma como eu?” “Mas, filho, parece que eles estão começando a convocar pessoas que não se alistaram como voluntárias, pessoas que só fizeram o serviço obrigatório...” “Mãe, já disse que isso tudo não passa de lenda... aposto que é coisa criada para preocupar pessoas como você.” “Eu sei. Mas... o filho da Nancy é militar. Ele disse que a guerra está ficando difícil. Em breve eles vão começar a chamar o serviço obrigatório. Só não chamarão os com família para criar...” “Mãe, e você acredita?” “Eu acredito e acho que pelo sim, pelo não, você deveria se proteger...” “Mãe!” “Sim, César. Você já tem uma noiva linda. Case-se com ela e trate te engravidá-la logo. Nada me deixaria mais feliz do que ter um netinho e esse netinho te proteger de ir para a guerra...” Essas últimas palavras foram ditas com os olhos de Dorotéia voltados para Simone. Essa, por seu lado, levantou-se, irritada: “Já chega.” César ficou assustado: “O que foi, amor?” “César, não dá mais. Eu... eu não te amo o suficiente para casar contigo e... e é isso. Esquece!” E sem pensar duas vezes, sem pensar em mudar de ideia... sem pensar nem mesmo que ela estava errada... ou garantir para si mesma que estava certa, Simone saiu da casa de Dorotéia. Sentia uma tristeza indescritível, mas também um enorme alívio. Qual dos dois era mais forte, porém, ela não sabia dizer. Só sabia que tinha acabado, e, assim sendo, correu para longe daquele lugar, um lugar para onde – prometeu para si mesma – nunca mais voltaria. (10112012) | ||||||
| |
|
| ||||
EUqueDISSE 2014 |
||||||